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sábado, 14 de janeiro de 2012

Congratulations! you have passed level one

Acordo com aquela sensação de já não haver nada mais para dormir, e ainda assim muita vontade de continuar a brincar com a frescura do lençol, a enrolar-se nos pés, a deslizar nas mãos. Sentir o corpo a afundar-se no corpo, libertar-se em micro sonos, para voltar a acordar e de novo afundar – até se cansar.
Domingo, eu sei-o. Sem calendário, sem aviso, sem lembrança. Basta ouvir a minha mãe, já na cozinha a lutar contra vapores de panelas, legumes a cortar para a sopa – esse sabor que nunca consegui reproduzir depois de tantas cópias falhadas que se seguiriam num futuro distante. O som indistinto, subaquático, da telefonia em amplitude modulada, a trazer músicas do fundo do último naco de transistor, a embalar o vai e vem da faca nas batatas, e ela a cantarolar por cima naquele mmm aveludado que só uma mãe a sério sabe fazer.

Pela janela entram farrapos ordeiros de luz, envoltos em nadas de dez da matina. Luz própria de um verão preguiçoso por começar, filtrada pelas folhas dos limoeiros do quintal da vizinha Adelaide, árvores embaladas num sono de brisa mole.

Existe um falso silêncio, de passarada a ressacar, piando aleatoriamente em contraponto com uma ou outra coisa que lá fora acontece: uma ladainha de mundo à espera de acordar, enrolado nessa luz preguiçosa. Por isso eu sei, é Domingo.

É dia de desenhos animados em pijama, olhos em cima da televisão, muito perto para não escapar nada, bulha de telecomando com a irmã, apesar de querermos mais ou menos o mesmo. Não pense ela que por ser mais velha por dois anos que tem muito mais a dizer sobre o que ver ou não. Que se perceba que o programa matinal de Domingo está previamente definido desde a origem dos tempos, quando os telecomandos ainda não existiam, quando a cor televisiva era uma vasta paleta do cinzento muito escuro ao cinzento muito claro.
Os desenhos animados, sempre precedidos de pequeno almoço digno da recepção ao embaixador de mais-que-além. Um mimo que sempre me fez falta desde então, coisa que só voltaria a sentir ao de leve quando pernoitava em hotel caro, mas sem o calor que só as coisas feitas com carinho têm. Fatias douradas, acabadas de fazer enchiam a cozinha de um cheiro mágico, acompanhadas de leite com chocolate, bem quente, independentemente da temperatura do ar. Fatias douradas são aquele fio de Ariadne que liga essas manhãs às outras menores manhãs em que como um simulacro muito mal amanhado de fatias na pastelaria. Invariavelmente acabava sempre por acontecer a fuga de uma ou duas fatias para a sala, a fazer-nos companhia no televisionamento das aventuras de leões que falam, unicórnios que voam, e outros seres muito coloridos, muito impossíveis, mas totalmente necessários. Fico sempre com a sensação de que poderia ficar mais duas, dez, vinte horas a ver bonecos a explodir, tartarugas a lutar com bandidos, coelhos a detonarem lobos, patos milionários e o mais que houvesse.

 Mais ou menos pela altura em que o cheiro da comida começa a invadir as divisões da casa, cavalo de tróia pronto a trair os estômagos em dieta, aroma embrulhado em luz forte de meio-dia, chega o meu pai. Homem robusto, de pouca conversa mas de sorriso largo. Larga sempre as chaves um pouco à bruta na base da fruteira, um daqueles aparatos de loiça que serve para largar tudo menos fruta: isqueiros, chaves, contas da luz, contas da água, pilhas, postais… e todas as outras coisas que se largam, que não têm bem um sítio próprio, mas que convém estarem sempre à mão, mesmo que depois sejam eternamente esquecidas.

O pai Valério tem sempre uma brincadeira pra  nós, coisa de macho carinhoso: um calduço, uma rasteirita, uma valente carga de cócegas… deve ser como aquelas coisas que se vê nos programas sobre chimpanzés, a seguir aos desenhos animados, reforço de laços familiares… mas sabe bem. Entra na cozinha, com a sua voz ressonante, como se fosse uma linha de baixo de música soul, e troca algumas palavras com a minha mãe. Sempre tiveram uma relação que irei invejar daqui a alguns anos, e por muitos anos. Pouca conversa, muito eficaz, brincadeiras pequenas, muito físicas, beliscões, apalpões, risota miúda, entendimento total.
 Quando o meu pai entra em casa, entra com ele um cheiro a ervas aromáticas, como se fosse o tempero final do cheiro dos cozinhados da minha mãe. Um cheiro a coisa que veio e voltará para a Natureza, que aliás nunca se separou verdadeiramente dela e que me custará tanto devolver a Ela.

O almoço de peixe assado não é só peixe assado. É risota sobre a espinha que fica pendurada no bigode do pai,  não esquecer de não pôr os cotovelos na mesa, discussões acesas sobre se quando a hora adiantar irá roubar horas ao sono, apesar de todos os anos a contabilidade ser igual,  grandes talhadas de melancia comidas com pressa tal que geram pequenas batalhas na laringe. O rádio continua lá no fundo a cantarolar qualquer coisa indistinta e nebulosa a acompanhar o estalar das últimas brasas de carvão na grelha. E há vinho, e há azeite e pão, e azeitonas… e tudo isto é um domingo.

Levanta-se a loiça e quase que se ajuda a mãe, sempre de olho na escapatória para mais umas horas de brincadeira, aproveitar bem que amanhã há escola outra vez.

Fui à casa de banho e reparei pela primeira, mas não seria a última, uma mancha vermelha, deslavada, pequena, nas cuecas. Nesse dia ainda não o sabia, mas hoje carrego dentro das entranhas a prova que tinha ultrapassado o primeiro nível desse jogo inglório que é viver.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

21h30

Sendo onde desperdiço tanto tempo, o tempo aqui até que me parece mais lento. É mais viscoso e desenrola-se num murmúrio. Uma ressonância mole que exala das paredes, movida pelo gerador da iluminação baixa.
Não venho aqui pelo chá, nem pelo café, que tenho em casa. Não venho pelo cigarro que fumo numa lentidão de princípio de tempos. O pouco que por vezes aqui petisco também não é culinária que tirasse alguém de casa com a chuva fina e nova que cai, a empurrar os casais para o sofá e a prender os gatos em beirados de janelas. Não é pela companhia de conversa que não apareceu. Não é pela música de fundo, que está tão no fundo que nem se lhe vê o brilho, apenas roça a medo no cone das colunas, um crispar débil de qualquer coisa sonora. Em suma não venho aqui pelo que aqui poderia haver, porque tudo o que aqui há posso tê-lo ou construí-lo noutro lado, talvez até com uma forma mais própria, um casaco de alfaiate e não esta calça de pronto-a-vestir.
Venho aqui porque aqui construo uma nova solidão. Uma solidão com brilho de colheres de café a reflectirem uma luz amarela e densa que banha tudo num nevoeiro de preguiça triunfal. Uma solidão que namora o barulho quase marítimo das conversas intercaladas pelo gelo a rodar nos copos, da máquina a registar mais uma sandes de carne assada, porque aqui não se pode pedir comida complicada.
Venho aqui porque trago esta solidão a passear, é o meu cão que precisa de cheirar tudo o que cheirou ontem outra vez, mas sempre com um abanar de cauda frenético como se este fosse o dia da criação de todos os cheiros, um génesis olfactivo.
Venho aqui porque me perco entre o imiscuir-me nas conversas de um casal soturno e o tilintar da colher a mexer o café, tudo interrompido pelo vapor da máquina a aquecer um cappucino muito falsificado, quase meia de leite. E porque este queimar de minutos a ler um jornal qualquer, mesmo que da semana passada, me banha a alma de uma qualquer coisa domingueira e aprazível. É um sol portátil reanimado por pilhas de dormência, lento mas quente e que me faz sentir pequeno e protegido.
Não venho aqui por estar à espera de companhia, porque essa não vai aparecer. Sento-me nestas cadeiras porque é um sítio em que a solidão me faz companhia. Porque tenho todo um espectáculo de cor e luz, que me dá aquele ultimo aconchego antes de ir pôr o corpo a dormir.
Sento-me com urgência, porque todo o tempo é pouco, quando o quero ver bem desperdiçado. E tenho vindo a apurar essa preguiça, com maneirismos e rituais próprios duma nova religião, libertadora e sonâmbula. Primeiro sento o corpo na mesa em que me pareça existir a cadeira que me vai prender por mais tempo. Tiro cachecol e casaco, e lambuzo os olhos pela sala, mirando pontos infinitos mas sorvendo todos os personagens e mobiliários. O décor é conhecido, os actores também são sempre muito familiares, e isso é reconfortante.
Venho aqui porque venero este templo de inutilidade, onde posso simplesmente largar-me a não fazer nada. E não é fácil, acreditem. A arte do apenas não-fazer é coisa muito difícil para o comum dos mortais, e nem sempre é atingível. Requer manhas de animal doméstico, requer treino de atleta, meditação de budista, ausente num nirvana de estar entretido só com o cintilar do fumo do tabaco na luz difusa dos candeeiros demodé do café.
O pedido é feito ao empregado com requintes de novidade, uma coisa que preciso mesmo, agora, impreterível, desejo de grávida. Mas tanto eu como ele sabemos que não passa do mesmo café que pedi ontem e antes de ontem, e por aí fora. Um ciclo que se repete num ritual nocturno, religião pagã de deus líquido. É sempre o mesmo café, o mesmo copo de água e o mesmo cinzeiro. Ele, tal como eu ao pedir, ouve o pedido com uma delicadeza de primeira vez – acho que percebe o ritual e desconfio que lhe apraz fazer parte dele. Ele sente que encarna o cálice da eucaristia, mas com avental preto e camisa branca.
Espero sempre que o café arrefeça um pouco, nem tanto pelo calor do líquido mas para poder apreciar o vapor perfumado que emana da chávena. É um complemento gratuito que não dispenso, um luxo de pormenor que completa toda esta dança de tiques. Não preciso de açúcar no expresso, aliás quase que não ponho nenhum, mas acabo sempre por abanar o pacote até empurrar os minúsculos cristais para o fundo do rectângulo de papel e abro a goela do invólucro até meio caminho. Despejo uma quantidade insignificante de sacarose na chávena e prontamente puxo da colher, minúscula e cintilante, que enfio nessa seiva castanha que anima o mundo. Mexo, remexo, canso o líquido com o remoinho até eu próprio me fartar. Só agora é que o posso beber. Só agora é que o café está pronto a entrar neste corpo empreguiçado. E bebo-o. Bebo-o devagar mas com afinco, num saborear lento e calculado.
Qualquer apreciador de café sabe que o sabor muda conforme a geografia do tempo e do espaço. Este café não tem o mesmo sabor daquele que tomo meio à pressa no quiosque perto do trabalho. Esse sim, com uma função específica e absolutamente necessária: animar o tecido adiposo, nervoso, muscular, esquelético, para mais uma estafeta. E esse não me vai chegar. Sou muito amigo da cafeína. Ela compreende-me, e eu bebo-a com gosto.
O café da manhã, arrancado a custo das goelas metálicas duma máquina que não é relíquia de museu por questões meramente empresariais, sabe-me a cidade que acorda e que boceja, e que responde devagar aos bons dias, num esforço hercúleo duma humanidade sonolenta. Tem aquele som de sino da escola, coisa que vai começar, sequência de abertura de talk-show televisivo, tiro de partida. E empurra, a mim e aos outros que se acotovelam á volta do quiosque, para essa corrida com meta que foge e que quando acaba já tem promessa de voltar amanhã – a menos que amanhã seja domingo.
Este que arrefece à minha frente tem o sabor de todo um mundo diferente. Sabe a preguiça, a jornal por ler, a discussão lenta e fácil sobre uma arte qualquer, a urbe que se quer manter acordada para apreciar o cintilar de candeeiros. Sabe a conversa mole, a tempo que é sempre pouco para ser desperdiçado com gosto. Tem som de jazz preguiçoso, tocado por pretos gordos e afáveis, de dedos imensos e cilíndricos, despreocupados com as ganâncias do mundo e as politicas dos políticos. Tem aura de rua estreita e sinuosa banhada por um só candeeiro de luz amarelada e movediça. Tem cor de coisa eternamente vaga mas sábia, de domingo tardio.
Café bebido. Ensaio um ar de enfado em roda e puxo do cigarro. O último do maço – vou ter uma oportunidade de me fazer passear pelo espaço que une a minha mesa à máquina de venda automática: uma caixa metálica feia, colorida, desenquadrada do meio, encostada num canto pouco luminoso, para não atrapalhar o resto da encenação de conforto.
Enquanto queimo o cilindro para dentro de mim, vou pensando em coisas miúdas: mercearia, comida, o dinheiro que ainda falta gastar, aquele par de ténis que ando a prometer a mim próprio comprar há um século de semanas, as mamas da vizinha, o vizinho do lado e a sua estereofonia de alta capacidade sonora, os anos do meu pai que se aproximam, a picadela de mosquito que me anda a coçar a orelha, o enigma resmungado que o patrão soltou esta manhã, a sandes de atum que caiu mal e que parece ter decidido ficar mesmo pelo esófago e da lá não sair… Mas sei que é uma maneira de fugir às outras coisas, aos outros pensamentos. O truque é manter as coisas miúdas acessas antes de chegar ao filtro.
Neste templo de inutilidade não sou o único a orar a esse deus fumarento da inércia por vontade própria. Várias mesas enchem-se de solitários, casais, trios, quartetos, e mais raramente até sextetos, de fumantes, amantes, amadores e voyeurs, amantes da realidade alheia, parasitas do nada – como eu. Sentam-se em grupos, e mesmo quando sozinhos fazem parelha com o movimento dessincronizado dos bailarinos que transportam cafés e águas com gás. Encetam conversas repetidas e imitam-se num ritual de confortável mímica social. E eu partilho com eles este éter viscoso de nadas somados – não é maravilhoso? Não é estrondoso o murmurar cúmplice de todos eles somado ao meu auscultar? Não somos nós uma família unida em torno daquela mosca que enamora sem pressa o vidro que protege os bolos? Acho que sim, acho que isto são fatias de uma felicidade amorfa e doce como um martini bebido a goles de pintainho enquanto se espera que o tempo desenrole.
E quando estou quase a cair no limbo da hipnose, no nirvana do quase não estar nem aqui nem em lado nenhum, relembro-me que um outro café me espera: o da manhã. Um íman que nos puxa para a a outra rotina, a que me esforço por esquecer, por ser maior que esta, por ser obrigada e não escolhida.
Bem… vou para casa. Amanhã há mais.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Eu sei que são só vinte minutos.

Eu sei que são só vinte minutos. Sei que não é o fim do mundo, até por que esse de tanto prometido nunca mais chega. E sei que até me posso considerar abençoado, não é das piores linhas, há quem tenha que mudar de linha, apanhar eléctricos e comboios e sei lá mais o quê. Eu sei isso tudo… Mas isto está a tornar-se como uma ferida que não cura, volta e meia rebnta a crosta, sangra de novo.

E hoje então, isto está mesmo do piorio. Um calor abafado vibra nas janelas, tolda a cara dos caros utentes, sua nas camisas dos estagiários, enfraquece as pernas dos turistas exploradores, inquieta os estudantes na recta da meta antes do devaneio do Verão. Poderiam ter dormido setenta e duas horas de enfiada que assim que aqui entrassem, entrariam na mesma hipnose sonolenta de quem não quer pensar, de quem não quer estar aqui, de quem só quer é chegar ao ponto B, as portas abrirem-se e fugir para o ar livre. Por isso todos nós somos sonâmbulos aqui. Todos estamos no devaneio do limbo pré hipnose, ou pelo menos representamos que estamos, para o público sacolejante, de estação em estação.

Abre-se a porta na primeira estação depois da que me engoliu. Sai um magote desordenado e aleatório, que isto não é o Japão e nós não somos finlandeses, entra um outro magote, cara de derrotados antes do jogo, não há lugares sentados, não há lugares em pé com o afastamento que o Verão pede. Um ser enrugado, pálido, quase translúcido, encosta-se à barra que dá forma ao assento e abre o jornal. Ler é das poucas liberdades que esta caixa de aço e alumínio nos dá. Mesmo que sejam só vinte minutos… é como a sesta, também não convém que seja muito mais.

Que fez este velho com a vida que passou por ele? Porque insiste em nos acompanhar na toupeira de ferro? Até quando vai ele ter paciência para ler o desportivo neste embalar ruidoso e intermitente? Não sei. Problema dele.

Mas não deixo de ser puxado, magneticamente, para uma observação longa e detalhada da figura, um espectador de uma exposição de fotografia, sem a preocupação do observado ver o observador. Não só as rugas são imensas, como o cabelo, apesar de intacto no couro, já não apresenta qualquer cor. Nunca saberei se este homem foi louro, moreno, ruivo… As mãos são finas, longas, aparentemente impossíveis de articular. Mas articulam, numa quase adivinhada dor de falanges e falangetas, a separar com cuidado e calma cada folha do jornal. A roupa antiga mas de corte adequado ao corpo, sinal de um cuidado de quem percebe a arte de sobreviver ao abismo do tempo e da indiferença. No fundo, mais um sobrevivente da travessia diária, conformado com estes minutos de alienação, calor, cheiro, contacto. Saiu no magote seguinte, passo lento mas firme, vai seguro, não precisa de pena, misericórdia ou carinho - por isso não divago mais com ele, fica apenas a minha inveja pela sua serenidade, que tanta falta me faz nestes dias de calor e suor.

Existe uma periodicidade estranha e nova na frequência com que ultimamente revejo pessoas que não conheço mas que reconheço. Uma senhora de meia idade, de roupas sempre com algo de florar, sacos de compras, revistas cor de rosa e sempre uma chamada de telemóvel para atender, em voz alta e brejeira. Um casal de asiáticos que agora revejo-os na situação de pais, ainda mais stressados e assustados que antes, a mirar os mirones pelo canto do olho, o que no caso deles é um autêntico triângulo. Uma estudante, que agora já não o é ou então fartou-se de carregar livros. Ia sempre muito provocante na pose e no estilo, mas nestes dias vai sóbria e alheada. Talvez tenha casado e vá a pensar no móvel da sala que queria tanto comprar, talvez tenha casado e vá a pensar que não quer comprar móvel nenhum mas que agora já é tarde. Um senhor de idade, mas não muita, que se não é padre disfarça muito bem. Sempre com um esboço de sorriso que nunca concretiza e uma polidez abafante e desnecessária. Um preto que teima em continuar a ouvir música, nos auscultadores, alta. Mas agora ouve-a ainda mais alta, como se a quisesse também enfiar pelos nossos cérebros adentro, num prenúncio da surdez precoce que daqui a uns Verões lhe vai assaltar. Um homem de traços finos e pouco vincados que teima em ler livros de espessura hercúlea. Continua a fazer pausas no que lê para mirar um ponto que está para lá do fim da linha da ultima estação. Acho que ainda não chegou a conclusão nenhuma. Um tipo encorpado, que agora ainda se mostra mais encorpado, de tal modo a roupa parece sempre pouca para toda a massa de músculo e tendão anexa a ele. Sempre com o seu saco desportivo, enorme como ele, à beira dos pés, em segurança. Ainda assim não são estes seres revisitados que me diluem a sensação de vazio quando as portas fecham e damos o solavanco que vence a inércia. Eles nunca saberão que eu sei que eles existem, e eu nunca saberei que alguns deles até sabem quem eu sou. É como lá no meu prédio. Eu sei que a minha vizinha faz sempre uma algazarra de risos e gritos com o marido na sexta à noite. Mas não sei o nome deles, nem vou lá perguntar.

Certos dias consigo libertar-me do facto de estar aqui. É muito simples na verdade. Levo um bom livro, uma má revista, um jornal sensacionalista, um jornal politizado, uma magazine de música, um qualquer punhado de letras organizadas de modo a pôr os olhos nelas. O problema é que como tudo o que é simples, é difícil de alcançar se não tivemos a mente limpa.

Umas das ajudas, por muito mau que isto vos possa soar, para me animar na viagem são os painéis publicitários. Têm sempre algo a dizer, mudam todas as semanas, são coloridos e algumas vezes até me fazem rir, de um modo inteligente e silencioso. Assim eu vou sabendo que com Tolf a minha vida pode ter uma frescura crocante e que sem Nils a minha roupa jamais será a mesma. Já não consigo viver sem a brisa fresca e suave do roll-on Vuzt e sei que mais cedo ou mais tarde vou ter que fazer aquele PPR do anúncio do cão e do velhote. E sinto-me de algum modo unido a algo, acarinhado por alguém. Eles pensaram em mim.

Existem alguma coisas na viagem que, à falta de distracção maior, ocupam o meu pensamento por dois ou quatro minutos. Tenho um fascínio sempre renovado pelas galerias técnicas, com os seus destroços abandonados, os seus cabos multifilares, multicolores, multiembaraçados e multipoluídos a correrem a par e par com a carruagem. Que se passa lá? Se eu lá me escondesse, eremita solitário em busca de iluminação celestial, alguém me iria interromper? Se calhar o velho estóico do jornal desportivo… nunca se sabe. E lá ouviria o mesmo que oiço aqui dentro desta caixa metálica?

Todo o ruído, mecânico, repetitivo, que vou reconhecendo, uma música que canta o caminho de ida e o de volta, apenas alterada pelo adorno das vozes, dos passos, que mudam. Mas não mudam muito. O ritmo é sempre o mesmo, a cadência também… é mais uma questão de instrumentos… uma vezes mais graves, com mais ou menos vibratto, com maior ou menor ataque. Esta música já me embala estes vinte minutos de ida e vinte minutos de volta há quase oito anos, e nada a muda. Pintaram as estações, mudaram as máquinas de venda automática, renovaram os assentos, mudaram as correias onde nos penduramos em segurança, quando de pé é a única maneira, mas a música mantém-se.

De início, quando fugi do fim do fim-de-mundo para este beira do fim-de-mundo, tudo isto me fascinava. Um brinquedo gigante de sons, cheiros e reboliço. Nada me fustigava e tudo merecia ser observado com uma atenção de esponja de lavar loiça. Prendia-me em pormenores gigantescos, quantas pessoas estão numa estação, demorava-me em generalidades microscópicas, o padrão do vestido da rapariga morena do banco da frente. Tudo era válido para transformar cada viagem numa viagem nova. No fundo já pressentia o peso da rotina vulgar e desgastante do que viria depois. Depois veio a fase do cliente habitual, metia conversa, ria de coisas banais, sentia-me em casa. Mas ultimamente já não suporto esta parte da minha existência. É tudo demais. Fico com um cheiro a metal oxidado na roupa, se com sorte não tiver que tocar em ninguém que cheire pior que eu. De manhã ainda levo, eu e todos os outros, o odor dessa panóplia de coisas que se compram nos supermercados. Mas no final do dia já isso foi gasto em telefonemas, em correrias, em labutas, e cheiramos todos ao mesmo, uma raça humana cansada e infeliz. Os bancos largam um fedor velho e lento a cidade, abafado pelo cheiro a electricidade, vomitado pela goela do tubo, por onde entramos todos no nosso sonambulismo comunitário.

Lembro-me de há coisa de dois meses ter encontrado um colega de longa data no percurso de volta. Não o via há mais de dois anos. Dois anos não é assim tanto tempo, mas neste caso pareceu-me que tinham enfiado o rapaz numa máquina de secar roupa, centrifugação no máximo, programa longo. Mais um fruto da cidade. Encetei conversa tentando alcançar o estado de graça e harmonia que tínhamos há vinte e quatro meses, mas pareceu-me estar a falar com um estranho sobre outro estranho. Desde esse episódio que o evito se pressinto que ele possa estar na mesma carruagem. Não quero repetir aquela sensação de estranheza, de ver um corpo familiar, que julgo conhecer, não ter nada para me dizer, nada em comum para falarmos. Assim preservo a imagem antiga dele, do bebedor de muitas noites, do falador de muitas conversas do riso de muitas risotas. E evito o estranho que agora colecciona profundidade de olheiras e respostas vagas e óbvias.

Antes deste tédio enorme, perdia-me a apreciar o graffiti da subcidade. É impressionante onde este pessoal vai para borrar uma parede. Dentro da galeria existe todo um ecossistema de tagues que lutam entre si para se perpetuarem no ínfimo espaço de tempo até um outro puto com sonhos se infiltrar no tubo. Algumas preciosidades artísticas vão decaindo com o tempo em suportes diversos: caixas eléctricas, sinalização, cartazes gastos… até que a murraça negra encobre tudo, uma nova tela para o próximo graffiter. Mas o graffiter alimenta mais a alma dos que pintam da que dos apreciam e filtrar o sumo no meio de tanto lixo começou-me a cansar e abri portas ao tédio de novo.

Não se iludam os que pensem que eu desgosto deste sitio. Acho que não encontraria outro melhor para mim. Apenas queria outra posição neste plantel. Por vezes, quando vou ao centro para comer um hambúrguer mal passado com alface industrial, observo os apartamentos no alto das caixas altas de betão. Não deve ser assim tão mau…

Confesso que já pensei em fazer o sacrifício de gastar mais doze minutos para ir de autocarro – mudar a minha vida. Mas doze minutos implicam muita coisa. Implica acordar mais cedo, implica chegar tarde… e eu sei que depois volta tudo ao mesmo. O que tem que mudar não é a viagem, é o viajante. Esta pessoa tem que perceber de uma vez por toda que são só vinte minutos, nada mais que isso. Serve apenas para chegar ao trabalho. Não há nata de metafísico nem de poético nisso. É só a merda de uma viagem de metro.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O regresso do meu irmão

Hoje até está menos frio. O Verão aproxima-se, puxado por um final de dia vermelho nos fios de nuvem que ainda sobram. Já não devia estranhar estas coisas do ciclo do clima, afinal ando exposto ao clima há tanto tempo… mas creio que é pelo meu renovado espantar nestas miudezas que ainda me mantenho.

Tenho dormido neste sitio já vai para umas duas semanas. Não é mau de todo: o banco de jardim até é dos mais largos, daqueles antigos, pés de ferro forjado, enrolados, ripas de madeira, espaçadas mas não muito, apenas o suficiente para marcar as costas.

Os estudantes ficam até tarde aqui na rua, lá aparece um outro colega de mendigagem e de bebedeira, enfim – desenrolam-se os dias com um pouco menos de solidão. Mas, como sempre, começo a ficar farto desta cidade, das suas repetições, dos cheiros conhecidos e das caras tornarem-se familiares - e tenho que ir para outra. Porque a minha companhia é esta solidão, esta solidão que renovo. É um jogo, um jogo de orgulho e de fuga, que persiste até eu achar que o venci.

Imaginem só que no outro aproximou-se de mim uma senhora da minha idade, dessas que imaginam que são modernas, e deu-me os bons dias. Na altura nem percebi o que se estava ali a passar, mas no dia que se seguiu a conta apareceu-me feita em frente aos olhos – ela já se tinha familiarizado com a minha presença ali de manhã. Mas onde é que isto vai parar? Daqui a nada quer saber o meu nome, não? A vantagem de se ser vagabundo é, acima de todas, essa mesma: anonimato. Eu não sou ninguém, não interesso a ninguém e não valho nada para ninguém. Imaginem que esta pobre alma começa a ter pena de mim! Mas não estou a falar da pena medíocre da qual vou vivendo, disfarçada de misericórdia, mas sim da autêntica, preocupação real, não com a sua consciência mas com o meu estado. Inadmissível! Amanhã já não me apanham neste banco! Tenho que ver o outro jardim que fica na outra ponta da cidade… Ou então rumar para outra cidade, sim… isso ainda será o melhor.

É verdade que já me custa a idade a avançar e a energia a desaparecer. Já não é tão fácil pegar na trouxa e partir pelo alcatrão até à próxima cidade, ainda me dá aquele gozo, mas o corpo já reclama. Cinquenta e dois anos não são vinte e dois. E tendo em conta que decidi não ter número de segurança social, não posso ir ao médico… até que para ir ao médico tinha que dizer o meu nome: e isso seria inadmissível… acho que já o tinha dito. Mas sim, confesso, chateiam-me certas coisas da vida de vagabundo… não lavar os dentes, por exemplo. Isso aborrece-me de morte. Aprendi um truque com os pretos na televisão: um pauzinho de árvore meio verde, resolve a coisa. Sofro com a falta de entrar num cinema – eu antes via cinema todas as semanas. E gostaria de ter um sítio para ter um cão que me estimasse e que o estimasse. Mas não se pode ter tudo…

Então parto amanhã, está decidido. Mas hoje vou ficar a aproveitar o ar quente de verão que escorre das folhas das árvores até ao chão, transportando um cheiro de trabalho vegetal imenso, um suor vivo e verde. Eu aprecio estas coisas. Coisas poucas e soltas que o mundo me dá. Não preciso de televisões, confusão diária de sons e de notícias, governos que se desmancham, aviões que caem. Não preciso de novelas falseadas em planos meticulosamente iluminados, porque sorvo as reais, bem mais trágicas e intensas, sem maquilhagem nem decor.

Saboreio coisas pequenas, mas quando as saboreio finjo para mim que são cerejas importadas com gelado de menta persa e pepitas de chocolate negro. Coisas como assistir a uma luta de pardais pela fêmea. Dois gatos a brincarem com a rega automática do jardim. Três crianças a maltratarem o avô com as habituais perguntas metafísicas.

É impressionante a quantidade de coisas que ouvimos quando dormimos num jardim. Amantes a discutir. Namorados a planear. Estudantes a desconversar. Bebedeiras imensas de quem chega a uma hora da noite que já julga puder falar sobe a metafísica das coisas, bebedeiras imensas que transformam o surdo num connoisseur de solos pentatónicos e inversões de acordes. Sorvo essas conversas para mim. Não há assim muita disponibilidade para ir ao teatro, ver novela no café implica consumir e ler só mesmo restos de jornais no inverno, mas já me deixei disso – dá um ar muito decadente. Por isso estas pontas soltam de conversas na rua são o meu entretenimento, a minha diversão miúda.

Por vezes, raras mas suficientes para manter a chama da curiosidade, oiço conversas verdadeiramente dignas de serem impressas, em times new roman, justificado, espaçadas a linha e meia. O meu ouvido já não ajuda tanto como dantes, mas ainda assim recolho muita coisa que aponto no meu único pertence, a única coisa que realmente amo como se de algo mais que uma coisa fosse: o meu livro de conversas. Aponto-as logo, se tiver lápis, ou quando este desaparece ou se acaba, sacrifico uma ou duas cervejas para comprar o próximo.

Há quem se dedique à caça, quem se dedique á fotografia, quem se dedique a filatelia… eu colecciono conversas. Com sorte, numa época boa, apanho umas duas boas conversas num mês. O verão facilita mais a caça, as presas andam mais soltas, mais falantes. As melhores são geralmente aquelas em que os falantes já estão alterados, pelo sopro de Baco, ou de esses outros deuses modernos, mais sintéticos. As pessoas falam sem pensar, o que ajuda a que seja ao espírito a falar.

Desde que ando nesta vida, desde que abandonei a outra que tinha, já enchi dezoito cadernos de conversas. Guardo-os todos na única coisa que possuo neste mundo – a minha mochila. E um dia espero voltar à casa dos meus pais, que de certo já lá não vivem, tomar um banho, comer um bife, e depois destes luxos dizer à minha irmã, se ela estiver lá, ou ao meu irmão se ele tiver paciência: toma, imprime isso, põem na net, qualquer coisa. E reformar-me…

E pensando bem… é amanhã. Amanhã volto para casa

terça-feira, 5 de maio de 2009

Implicações estéticas da medicina legal

Um cadáver bonito. É estranho, nunca pensamos nisso. Mas se pensarmos nisso sem revermos um futuro a adiar pode haver beleza nisso, não? Se analisarmos o objecto em cores e forma, um tema de fotografia, um quadro impressionista. Quem pode negar a beleza de uma papoila desfeita pelo vento? De uma ruína de uma igreja? Quem pode afirmar com absoluta convicção que não vê beleza num destroço de uma traineira, num cemitério de carros, no rescaldo de um incêndio? Apenas não temos a frontalidade de o dizer, às vezes nem tanto pelo que significa, mas mais pelo que implica.

O pai do Tó Manel era um cadáver bonito. Isto dito pela boca do filho, dito pela articulação mórbida do maxilar, meio adormecido pelo whisky que supostamente transforma o almoço numa coisa digesta. Nunca esperei ver tal metafísica escorrer pela boca de alguém que friamente e sem outras considerações apenas somava dias aos dias, pela força do hábito de acordar para trabalhar. Mas se calhar é isso que acontece a quem não semeou sentimentos em si. Resume as coisas aos factos. E os factos a coisas. E vai somando-os. Mas afinal a contabilidade dos dias lá lhe deu um sentido de estética, o suficiente para apreciar o cadáver do seu pai. Sabem o que o povo diz, se te queres ver daqui a uns anos, olha para o teu pai… Se calhar a consideração do Tó era apenas uma vaidade superlativa, embrulhada numa metafísica piedosa, mas vaidade na mesma… Mas eu sei que o Tó até era um bom ser, um bom colega de trabalho e em última análise um amigo disponível no tal momento que ninguém espera, em que todos falham.

Eu gostava de entregar um cadáver bonito. Não por querer morrer novo, estão tolos? Não por querer morrer extremamente sadio, o corpo é para gastar. Pela estética em si. Pela beleza que isso poderá ter. Mas mais importante do que isso é não ter um filho que o diga daquela maneira. Ou se o disser que o diga com carinho. Ou se o disser sem carinho que o guarde para si. Qualquer coisa… ou então não ter filho… qualquer coisa.

Aquele início de tarde no restaurante e o cheiro volátil do whisky abriu-me uma gaveta da memória. Uma gaveta poeirenta e perra, daquelas que só abrem aos solavancos. Mas abri-a.

Lembro-me claramente, da pele inanimada e lisa. Do olhar vidrado, sem rugas. O Miguel Luís era um daqueles rapazes que se fazem homem aos 17. Aos 18 fuma e bebe e compra uma grande mota. Uma mota vermelha, reluzente, potente, incontrolável. O Miguel Luís era um mocinho orientado, poupado, uma mota, um part-time jeitoso, uma namorada, uma rapariga doce e enérgica. Mil beijos de manhã no intervalo da escola… porque o Miguel Luís ainda andava no Secundário… a escola não era o forte do carateca. Estudava, só que devagarinho – e ainda bem que não desperdiçou tempo com isso. Um dia de manhã quis estar com o Miguel Luís, mas tive que estar com ele sem ele estar comigo. O cemitério lá da terra não tem morgue propriamente dita, resume-se a uma salita de mármore frio e de cheiro duvidoso. O Miguel Luís viveu 18 anos 4 meses e 6 dias. A cabeça não controlou a mota. A cabeça rachou contra um camião. Nesse dia não o vi como profissional, ainda não o era. Miguel Luís era meu colega na turma de Saúde.

A gaveta da memória é traiçoeira, a dor transforma-se num sabor metálico no céu-da-boca, como sangue dum lábio mordido, mas aceitável. A fúria ganha metamorfoses de cheiro e permanece como um perfume intenso de mar no fim de noite, mas de certo modo agradável. E assim, tudo aquilo que nos esforçamos por esquecer, acabamos por relembrar com carinho. A nossa memória é movediça, falsa e movida por interesses que me escapam completamente – e lá dou por mim a recordar do menos importante como se fosse o dia da minha vida e a esquecer as datas de aniversário dos que chamo de meus.

A senhora Madalena era um monumento à persistência. Persistência em levar a dela adiante, pela própria mão, em resolver a vida como ela queria, sem interferências. Falava com ela o mínimo que é necessário falar. Quero dois pães. Quero dez papo-secos. Mas aquela força viva da natureza, sempre indeformável, de tal modo que até as rugas pareciam falseadas na luz do rosto, chegou ao dia trezentos e quarenta e dois do seu septuagésimo nono ano e decidiu. Hoje era um bom dia. Um bom dia para morrer, até estou calma e bem-disposta. E então molhou a mão esquerda, descalçou o pé direito e agarrou-se ao cabo do interruptor da padaria. Ela via aquele cabo ali há tanto tempo… sem uso… uma ponta com fita isoladora. Bolas, há que dar serventia às coisas. E deu. E deixou um corpo teso, forte. Esse sim um morto bonito, livre e determinado até ao fim. Não que concorde com a escolha, mas há que admirar a tenacidade.

De há uns anos para cá decidi não perder mais tempo a definhar com o porquê, o quando e o como. Decidi que todo o tempo que me resta será gasto a celebrar o aqui, o agora, o que estiver a ser, o que tiver de ser.

Não sei, e sei que nunca o saberei, se algum dia vou ser personagem de uma gaveta especial de alguém, nem sei se isso importa muito. Mas é claro que não vou negar que gostaria de, a persistir numa dessas gavetas, aparecer com um corpo bonito, teso e radiante. Mais não seja para o caso de ser o meu colega  Tó a me fazer a autópsia, que o faça com um prazer estético mais elevado. Eu faria isso por ele.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Memória do meu bisneto

Já não me lembro bem como foi…  os pormenores até que me recordo, mas a totalidade da coisa escapou-se me! É daquele tipo de coisas que nos ultrapassa, que por mais que queiramos, só poderíamos absorver e compreender, no seu todo, se as vivenciasse-mos vezes repetidas, como uma música que se decora a letra de tanto a ouvir.


Eu vinha do trabalho, deveriam ser dezoito e trinta, dezanove, mais não. Eu na altura estava no Segundo Plano que era um sistema de trabalho social para Regenerados de segunda geração, que é o meu caso, já vou na terceira  regeneração. Lá no escritório tinha sido tudo muito calmo, era um dia normalíssimo, sem stress algum. Meti-me no auto e ia na via externa de acesso ao Bairro XLVIII quando aconteceu aquilo. Na altura não compreendi nada do que se estava a passar, e muito, ainda hoje, não compreendo. O céu primeiro iluminou-se dum rosa eléctrico, flamejante, de seguida o auto saiu do controlo automático enfiou-se pela berma da via contra os autoportantes de segurança. A voz do rádio digital simplesmente estava toda baralhada e não dizia coisa com coisa, saltava de servidor em servidor, mudei para rádio analógico enquanto mirava o céu que entretanto tinha ganho um brilho tão forte que deixei de puder manter os olhos abertos. Mas o rádio analógico também não funcionava, apenas emitia um zumbido. O painel do auto estava simplesmente morto. Depois o céu ficou escuro, muito escuro, completamente escuro.

Aos poucos comecei a perceber o que se tinha passado. As notícias que me entretinham durante o jantar já o tinham evidenciado e sentia-se a tensão no ar. Todos os dias surgia uma nova notícia na Janela sobre algo que, tudo somado, só poderia levar a isto.

É impressionante como tudo aconteceu rápido e de certa maneira indolor.

O meu bisavô Guerreiro falava muito da guerras do Iraque, do Kuwait, do Irão e da Mongólia como coisas que demoravam semanas a resolver, mísseis, casas destruídas, refugiados… Aqui não houve tempo para nada disso. Os mortos morreram na hora, os queimados na própria semana e os que sobreviveram correram para debaixo do solo no próprio dia.

Desde esses dias que vivemos dentro da Cúpula. Os que sobreviveram ao Clarão agonizam numa cela com pouco mais de dez quilómetros de diâmetro. A Cúpula é o que resta de uma civilização. O último resquício de uma raça que se achou superior, mas que não soube lidar com um pormenor mesquinho. Uma gaiola, onde tentamos fingir que não estamos condenados. Onde tentamos explicar aos nossos netos o porquê de eles terem que ser pais antes dos cinquenta - ao contrário de nós. E nem nos atrevemos a dizer-lhes que o mais certo é nem isso conseguirem…

Vivemos aqui há quase quarenta anos e sem vislumbre de melhoras… O ar rarefeito, reciclado até à exaustão, a comida plástica no sentido absoluto do termo, as doenças de pele, a água com sabor, e o céu sempre negro. Como deixamos de ter acesso ao mundo exterior, como tudo mudou, incluindo a nossa maneira de viver o que resta da vida. Agora, que somos quase todos inférteis, é que a tecnologia de regeneração é quase impossível de aplicar – ironia das ironias. E pensar que esse foi o motivo ideológico da guerra. Melhor, esse foi o motivo que nos impingiram como o motivo pelo qual destruíram o céu, secaram o mar e carregaram os solos deste zumbido radioactivo. Mas não foi. Nunca é. O motivo é sempre o mesmo. O motivo da primeira, da segunda, e da terceira não seria diferente do de todas as outras guerras: mesquinhez e ignorância. Uma luta estúpida e desmedida por um poder que é tão provisório como as nossas vidas e a ignorância do quanto podemos fazer com o pouco que sabemos.


Mas ainda assim, mesmo depois de tudo isto, as intrigas continuam – dentro da Cúpula. As famílias disputam entre si coisas que nunca demos valor, mas que agora são verdadeiramente importantes – água potável, comida de verdade, parceiros férteis e viáveis. E parece que a política veio agarrada a nós, como um carraço que sobrevive ao dilúvio. Continuamos a ser macacos mal amestrados, mas agora dentro de uma redoma mais pequena. Guinchavamos por um lugar ao sol, e desta vez por um lugar à sombra deste novo sol. É completamente absurdo, autista, mas continuamos a ter políticos, polícia, Estado, lei... para trezentas e poucas mil almas dentro duma redoma... como queijo protegido da gula das moscas.


A Cúpula foi construída por um punhado de poucas centenas de homens que tiveram a coragem de sair por oito meses do Abrigo Central - um bunker miserável sem o mínimo de futuro. Com um pouco de engenharia construíram, dentro do possível, um abrigo para tentar desenvolver algo que se assemelhasse a uma esperança. Esses homens, na sua larga maioria, morreram ainda antes da conclusão, pela mão da implacável e muda radiação. Esses eram homens – abdicaram de si por nós. Mas volto a perguntar-me: para quê? 


Este dilúvio teve o mesmo resultado do outro – a reconstrução de uma ninhada de ratos, abrigados numa Gomorra enfrascada. Confesso que me vou fartando de esperar que nasça o sol, para me voltar a desiludir com um disquinho luminoso no meio da escuridão.


Eu sei, e alguns de nós têm a certeza, que lá foram sobrevivem viventes, mutantes, com as suas gerações transgénicas, nos subterrâneos do mundo – metropolitanos, redes de esgotos, o que desse. Mas nós nunca tivemos a coragem de os tenta contactar. E sei que os nossos líderes (sim, os lideres voltam sempre a aparecer…) mantêm a secreta esperança que eles padeçam antes de os podermos ver. Mas seria no mínimo pedagógico, para percebermos no reflexo deles o que fizemos...


Tenho entretido os dias a ler os poucos livros que não foram apagados dos discos rígidos pelo Clarão. Vou buscar a dose diária de alimento de síntese ao Laboratório da União, num passo calmo e de quem já não tem muito a perder, mas consciente que pior que perder é dar-se a perder. Mas é difícil levar uma vida organizada quando o sol, quer nasça quer se ponha, não muda a cor do céu. Não tomamos banho normalmente porque a água é racionada, reciclada, mantida sob um controlo policial militar – passamos toalhas com álcool no corpo. Tento não respirar muito fundo para não absorver o ozono e os aditivos desinfectantes e toda a merda que agora misturam no ar. E a Janela já não existe - racionamento energético. 


Mas de tudo, o que me custa mais, por muito egoísta e estúpido que isto vos possa parecer, é ter que explicar um dia ao meu neto, que talvez nasça este ano,  que o céu era azul, que o mar tinha um cheiro, que havia chuva, estações do ano, uma luz natural que a nada se compara ao zunir das lampadas fluorscentes. E na verdade nem sei bem com isto aconteceu, não o vou conseguir explicar. Não sei o que lhe direi se me perguntar porque não fizemos nada... Às vezes, no pouco sono que vou tendo,  sonho que houve alguém que conseguiu evitar tudo isto – e eu estou na praia a comer uvas.

 

 

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O Noivo

Vou engolindo os separadores do traço descontínuo, rectângulos brancos que se escondem no fim do vidro, um pulsar monótono e interminável que no fundo é o meu consolo. Sou motorista vai fazer vinte anos em Setembro. Tudo começou com uma brincadeira, como quase tudo o que de sério tenho na minha vida. Tirei a carta de pesados por brincadeira, para fazer companhia ao meu amigo de altura, depois meu cunhado. Nunca me revi a fazer isto, nunca o meu curso de germânicas o ditaria, mas a brincar passaram-se vinte anos.

Transportei coisas que nem sei que existem para pessoas que já nem sei se ainda existem. Levei no semi-reboque, como quem leva no bolso, paletes de águas gaseificadas de importação que vão custar os olhos da cara num restaurante em Linz, sabonetes de luxo para lavar a pele de uma senhora que mora em Köln e que tem um medo enorme de envelhecer, papel que servirá para despedir o motorista do secretário de estado do Chipre, cerveja que irá embebedar a Teresa em Cádis e por isso será mãe, reagentes para análise que vão contar ao Joseph coisas que o vão tirar de Amesterdão e o vão levar para a Bolívia, milhares de portáteis - e um desses vai servir para escrever o prémio Nobel de dois mil e catorze. Eu não sei nada disto é claro, mas como narrador que sou, gozo do direito à omnisciência. É um truque da escrita, que permite-me ver mais do que o que sei. Culpem o escriba.

Conheço noites de auto-estrada intermináveis e tardes de via rápida sem fim. E gosto. Gosto mais do que das manhãs nervosas e apertadas em que todos os outros mortais conquistam o direito ao alcatrão, numa ânsia de chegar ao centro do centro, ao parque comercial da zona industrial, ao nono departamento da oitava secção da primeira divisão, para chegar a horas. Chegar a horas é a construção mais estúpida que a gramática me oferece. Como se eu chegando depois as horas não esperassem por mim.

Estou a conduzir há três horas. Não tenho sono, mas vou parar na estação de serviço – um reflexo aprendido com os anos e que no fundo é mais um ritual que serve para combater a solidão. Café tenho no térmico, comida na lancheira, música no rádio, não quero cola, não fumo, não posso beber e não quero revistas cor-de-rosa, ou porno, ou de palavras cruzadas. Não preciso de porta-chaves do Barcelona, não preciso de batatas fritas, não preciso de dêvêdês do Steven Seagal nem de bolas de praia – até porque o verão ainda não começou nem no calendário nem na praia. Paro para parar, porque devo parar, porque sei que parando cumpro para com algo e isso chega-me.

Peço um café com leite, que bebo mais pelo calor que me dá do que pela cafeína ou pela proteína do leite. E respiro… devagar, não há pressa nenhuma – não posso passar dos noventa à hora, não vale a pena pensar em acelerações, nem em velocidade e a distância… essa é fixa, vai-se reduzindo com o avançar da noite. Adoro as estações de serviço, no sentido intrínseco da palavra. São locais de culto em que me perco como um Álvaro de Campos da camionagem. E isso é bom, faz-me bem. As personagens gastas e psicadélicas que se cruzam comigo neste antro gasolineiro distraem-me como um programa vespertino de televisão. E volto à estrada.

Por vezes sinto que a estrada é um fio longo, muito longo, interminável e que o engulo, engulo tão devagar que não há paciência possível. Ligo o rádio, desligo o rádio, ligo o ar condicionado, abro a janela, ligo o rádio, desligo o ar condicionado, vejo o telemóvel, acerto a hora, desacerto a hora, fecho a janela, mudo de estação, vejo o telemóvel, acerto a hora, acerto o banco, agora é o espelho que não está certo, ligo o ar condicionado, paro na estação de serviço.

Outras vezes sinto que a estrada é uma fita magnética com uma melodia doce e lenta, que eu toco como se fosse uma cabeça de um leitor de cassetes, e que por mais devagar que fosse nunca a conseguiria ouvir até ao fim. E tudo me sabe bem. O reflexo dos sinais, os padrões do alcatrão, os animais que morrem no alcatrão, os buracos onde falta alcatrão. E a fita vai rolando, marcando um ritmo que eu acompanho com o indicador no volante. E tudo é novo. As placas que já conheço de cor onde têm ferrugem, as curvas apertadas, as curvas longas, as árvores e os sítios onde estavam árvores, as localidades e os seus peões incautos, as autoestradas e o seu modo automático. E esqueço-me de parar. O que é mau, porque como sabem, isto não é um mar de rosas – existem leis. Leis sobre velocidades mínimas, máximas e restantes, sobre quando parar, sobre quanto carregar, sobre o que levar, sobre o que ter… não existem leis sobre boleias, até agora. E por isso às vezes arrisco.

As boleias são como um investimento de risco, uma acção cotada na bolsa, um namoro com uma rapariga com o cabelo roxo, uma droga nova que ninguém sabe como bate, um vinho muito velho em promoção. Arrisco três ou quatro horas de viagem com uma pessoa. Pode ser uma alma iluminada, pode ser um estafermo – não há como saber. E tudo o que se possa dizer de antemão, baseado em factores diversos, computacionados e avaliados em pormenor, ou holisticamente,  não é conclusivo. Porque o aspecto é enganador, porque o sorriso de quem precisa é enganador, porque a postura corporal é enganadora… até eu me engano a mim próprio por aversão à solidão. Mas não se enganem comigo! Eu dou-me bem com a solidão, cultivo uma relação de extrema amizade com ela.

E esta noite decidi levar de boleia uma rapariga que tinha o carro empanado na estação de serviço, gritava ao telefone num francês perfeito, cara de desespero mas arrogante, olhos azuis brilhantes e fusilineos, uma boca fina e cara magra de acordo com o corpo, apesar de bem salientado em geral. Perguntei-lhe no meu francês macarrónico se estaria interessada em boleia em direcção a Lyon, mas que teria que ficar na última estação de serviço antes da cidade, já que eu não iria entrar pela urbe adentro. Lá me olhou com desconfiança, eu quarenta e dois, ela trinta e um. Mas aceitou, talvez pela necessidade que tudo empurra e tudo lubrifica, que aguça o engenho, limpa a vergonha e arranja forças nas pernas de um velho.

Expliquei-lhe que a viagem demoraria cerca de duas horas, sempre com o limite de velocidade na cabeça, mnemónica de condutor profissional, coisa que já não sai do cérebro, tatuagem invisível. Sorriu e disse-me que isso seria o menor dos males. E lá fomos.

Primeiro aquelas coisas normais, ter ou não ter bagagem, pode levar aí mesmo à frente – não faz mal. Depois as cortesias, que pagava a gasolina se fosse necessário. Não consegui evitar de rir, e foi por aí que a conversa começou. As conversas, dizia a minha mãe, são como as cerejas. Eu digo que são como um mapa de uma cidade em construção, de uma rua liga a outra, e a outra, e a outra. Lá lhe expliquei que o camião mexe-se à força de gasóleo, que abastece aos 400 litros de cada vez, que eu lhe ofereci boleia, não foi ela que me pediu, e que seria impossível de fazer qualquer tipo de contas sobre quanto custava o gasóleo dela! E pronto, arrancamos.

A curiosidade é algo de natural, é um instinto, é uma força que move as pessoas, os animais, talvez até as coisas.  E moveu a nossa conversa. Lucien é assistente social, apoia prostitutas toxicodependentes na chamada faixa de risco, ou seja aquela fase em que tudo parece estar perdido. E perdido por cem é perdido por mil, sem preservativo, sem regras, com agulhas, seringas, pratas e limões. Perante essa visão acabei por deixar sair uma banalidade pela boca fora, nunca imaginaria uma rapariga com um aspecto tão frágil a fazer esse combate diário. É uma vantagem, disse-me ela, uma máscara, uma bóia de salvação perante o demónio.

Contou-me de como é fácil passar o risco, o tal que todos sabem que existe mas que ninguém vê. A primeira hora de viagem foi a falar dessas pessoas, das que estão junto do risco, umas por opção, outras pela força da correnteza do rio da vida. Todos dizem que a vida é um caminho, que escolhemos a estrada que queremos seguir. Mas eu que conduzo em todas as estradas, que escolho entre todos os caminhos, digo que não. A vida é um rio. Um rio de corrente forte e indomável, onde a força dos remos resolve pouco, muito pouco. Não caminhamos, somos arrastados. Uns melhor, outros pior.

A segunda hora foi rir. Rir muito. Das peripécias dela com os proscritos pelo mundo normal. Do meu mau francês e do péssimo inglês dela, do meu curso de germânicas e porque nunca acabei por o usar, enfiado numa escola a ensinar palavras estranhas a adolescentes borbulhentos. E lá acabei por lhe dizer essa parte estranha, mas doce da minha vida. Como por brincadeira tirei a carta de pesados, como fazia companhia ao meu amigo, mais pelo interesse na irmã dele. Como ele acabou por se casar com a minha irmã e como eu acabei por me separar da irmã dele. E rimos da dor. Da dor de Lucien nunca conseguir realmente resolver algo em definitivo na vida das putas e dos drogados, de como eu pareço nunca chegar a lado nenhum apesar de passar os dias a viajar, do facto de nenhum dos muitos namorados de Lucien compreender a dedicação dela a pessoas que não lhe agradecem na maior parte das vezes, do meu problema de ausência permanente, e rimos de estarmos a rir. 

Confesso que fiquei triste quando chegamos ao ponto B da recta que unia o carro empanado da Lucien e a estação de serviço do quilómetro duzentos e oitenta e três da auto via A quatro cinco zero. Confesso que fiquei arrependido de não lhe ter pedido o contacto, convidado para um café, para um vinho, para uma noite. Mas de arrependimento está o inferno cheio e lá segui para Paris – tenho que chegar, entregar este contentor cheio de pólos quase de marca a uns chineses duvidosos que depois de coserem muito bem cosidos uns lagartos retorcidos no peito, os vendem, todos contentes, por tuta e meia.

De manhã tomo um banho no quarto da pensão e visto a segunda muda de roupa que sempre trago na mochila. Lá por ser nómada não tenho que ser porco! Como um pequeno almoço que faz jus ao adjectivo que acompanha o almoço e sigo de volta para Badajoz. Lá me espera o armazém, a carga de mais qualquer destino que ainda não sei. E prefiro assim. Alimento uma curiosidade, que se completa no momento da revelação, como um sexo entre coisas esteréis.

Na volta não resisto a passar por Lyon, uma desculpa qualquer que me falha agora, mas julgo que foram pneus… como se não houvessem pneus em Espanha!

Mas não encontrei de volta o acaso. E então conformado regressei. Devorei os quilómetros com uma raiva miúda de quem queria mais arroz doce mas sabe que não pode.

Passados cinco anos encontrei Lucien em Sevilha, eu estava de férias e ela também. Disse-lhe que estava farto de viver sozinho, ela também.

Não nos casamos, mas vivemos juntos em Lyon. Eu agora dou aulas de inglês a franceses seniores. A correnteza do rio levou-me.

quinta-feira, 19 de março de 2009

A caixa.

A caixa estava fechada. Fechada e selada. Em cima da mesa oval, longa e brilhante de verniz velho, jazia a caixa. Jazia o dono da caixa algures nos Prazeres, enterrado no sábado pela irmã, alguma chuva e o padre. Isto porque o coveiro teve que atender uma chamada e só voltou já quase meia hora depois para ajudar o pessoal da funerária na descida do caixão, já sem a companhia do assistente do divino.

Como se do caixão saísse, a voz trémula, profunda, gasta por quilómetros de tabaco, era agora repetida pelo procurador, também ele já longe da flor da juventude, um advogado que acompanhou o senhor Samuel desde o início dos tempos. E mesmo estando escrito, como todos depois leram, mesmo dito pelo procurador, como todos ouviram, era difícil de encaixar o veredicto do senhor Samuel.

Neste início ninguém se opôs ao trato imposto pelas quatro folhas manuscritas autenticadas no cartório de Loulé. Uns porque não queriam abdicar da pequena fortuna que isso implicava, outros porque achavam nisso uma brincadeira de tão mau gosto que até se riam.

A caixa tinha que cumprir um ritual algo absurdo, um pouco patético até. Teria que estar quinze dias com cada um dos legatários, em lugar visível e disponível a qualquer hora do dia ao procurador para aferir que esta nunca era aberta por ninguém. A sequência de rotação começava nos irmãos, do mais velho para o mais novo, passava para os sobrinhos e regressava. Um ciclo algo conturbado do ponto de vista geográfico, mas recompensador - por cada ano que se conseguisse dividir esta tarefa, os herdeiros recebiam um quinto da herança. Qualquer cabecinha percebia que bastavam cinco anos para receber tudo. E o tudo não era pouco. O senhor Samuel tinha um vício raro – enriquecer. Enriquecer era o motivo para continuar até que a saúde o permitisse.

A caixa era em pau-preto. Tinha dois selos, parecidos aos dos contadores de electricidade mas com muito mais pompa. Um era vermelho o outro roxo. Um cubo com vinte e dois centímetros de aresta. Relevos sobre caça com figuras gregas sem vestes na tampa que não apresentava dobradiças, porque estas eram interiores. No limite da tampa, junto à aresta que recebia os selos uma gravação minúscula: a César o que é de César.

A primeira semana foi mesmo muito conturbada. Os irmãos viviam numa área equivalente a um círculo com um diâmetro de 300 quilómetros. Quando tocava aos sobrinhos o diâmetro dobrava. Muitos telefonemas, muitas discussões antigas a virem ao de cima, algumas mágoas minúsculas mas tal como o fermento, pouca coisa que faz crescer muita. Quem leva o quê a quem, quando leva o quê de onde para onde e o que deve ser feito quando não dá para fazer o que devia ser feito. Mas lá se encaixou tudo, o móbil era óbvio para todos, mas ainda assim esses todos esforçavam-se por fazê-lo com um sorriso de vitória, como se a sua parte fosse o de menos importância. Não havia necessidade de ficar mal na figura e entretanto os mais ajuizados apressaram-se a celebrar cláusulas entre si de modo que aquele que violasse o testamento indemnizasse os cumpridores. O móbil crescia, mas era sempre o mesmo.

A irmã foi a primeira a receber a caixa. Ficou visível aos olhos de quem a quisesse ver, em cima da televisão da sala. Uma televisão quase tão morta como o seu irmão. E diga-se quase porque ao domingo fazia de rádio e passava a missa do quarto canal. Mas nesta quinzena foi diferente. A televisão foi limpa, ligada e tinha uma espectadora diária. Ou pelo menos assim parecia, porque o que realmente estava a ser contemplado era a caixa. Era magnética, no seu negrume, as figuras gregas, os selos – tudo puxava os olhos para ela. E no entanto quem em casa entrasse jamais iria prestar atenção àquele cubo ridículo em cima de uma televisão velha, ainda a preto e branco vejam só!

A primeira semana passou-se relativamente bem, sem grande agitação. Mas à medida que chegava o dia da passagem de testemunho crescia um sentimento estranho, incómodo dentro da Menina Gertrudes. Aquele sentimento de dependência que sempre o irmão lhe causara, de impotência perante os argumentos dele. Aquele servilismo voluntário que sempre acabava por marcar o ritmo entre eles. No fundo uma inveja profunda. E talvez por isso no dia da troca, face às dificuldades do irmão José de receber a caixa, Gertrudes não se fez rogada, bem pelo contrário. “A caixa fica, não tem problema, quando puderes, eu compreendo.”

A caixa lá seguiu para a casa do José. O José era daqueles cinquentas todos modernaços, namoradas para a esquerda, namorados para a direita. Levava a vida que queria, como queria, com quem queria. Mas no fundo nunca estava em paz – o normal. A caixa foi largada com todo o desprezo do mundo em cima do aparador da entrada. Com o mesmo desprezo com que sempre lidou com o irmão. O irmão não passava de um midas, arrogante e antiquado movido apenas pela sede de mais, completamente incompatível com os anseios e necessidades de José. José queria falar sobre bons vinhos, Samuel queria comprar vinho barato. José queria conhecer raparigas, Samuel queria encontrar uma dona de casa. José queria viajar para conhecer o mundo, Samuel queria viajar para fazer negócios pelo mundo.

Ao quinto dia José tropeçou com o olhar na caixa. Aproximou-se e leu a inscrição. “O meu irmão sempre foi um bocadinho estúpido, sem dúvida. Nem ele sabe quem foi César… Aqui está esta merda, a rodar de casa em casa… para quê? Até depois de morto tem que mostrar que manda… Foda-se! Não há paciência.”

E bem que lhe apeteceu quebrar os selos, tomá-los da ira que ainda guardava pelo seu irmão mesquinho, ordinário, vulgar e no entanto sempre moralista, sempre com a sua opiniãozinha sobre tudo o que se passava na sua vida. Mas lá se controlou e manteve a caixa intacta. E acabou, nos dias que restaram, a olhar para ela com um misto de curiosidade e raiva… sempre mantendo a distância que sempre mantivera do irmão.

A caixa seguiu para o sobrinho mais velho. O filho único de Gertrudes, ainda que toda a gente lhe chamasse de Menina Gertrudes, era um fulano pacato, pouco ambicioso, pouco tudo em geral. Menos no peso. Sérgio era redondo visto de cima e oval visto de frente… um porta-aviões humano, sempre pronto a engolir mais um hambúrguer, a beber mais um batido, a sorver mais uma cola e a dormir… dormir… dormir

Talvez por isso durante a primeira semana a caixa passou despercebida, algures no meio do que poderia ser tanto um quarto, como as traseiras de uma pizaria. No entanto num dia de pouco que fazer lá se fixou na caixa. Só lhe ocorriam aquelas caixas de bombons do Natal… Talvez por causa do colorido dos selos, talvez pelo preto da madeira africana – o que interessa é que só de ver a caixa cheirava-lhe a chocolate. E nada lhe tirava da ideia que era isso que lá dentro morava. Como um íman de chocolate que chamava com um assobio fino e lento. Afinal o tio nunca comera chocolates na vida, se calhar guardara naquela caixa algo que não era para ele, mas sim para quem gostasse. “Mas porque iria alguém guardar chocolates numa caixa e submeter as pessoas a este ritual estranho? E porque não?” Ainda que até ao próprio Sérgio todo este desfiar de especulações parecesse de todo ridículo, o certo é que elas foram ganhando espaço, cravando raízes, crescendo pelas paredes do pensamento até que o que a qualquer um parecia do mais descabido, afinal não seria assim tanto, afinal era bem possível e se calhar era o mais certo. Era a única explicação.

E os últimos dias foram passados a conjecturar sobre a possibilidade do conteúdo da caixa, alimentado um rol de possibilidades infinitas, alimentares, monetárias, místicas de tal modo que quando entregou a caixa à prima, teve que o ser quase à força.

“Ó Sérgio, assim ‘tá difícil! Dá-me lá isso que ainda tenho que ir à biblioteca! Vá despacha-te. O meu pai vai-se passar se lhe contar esta cena.”

Inês era filha de José e de uma das suas diversas mulheres. Josefina acabou por traí-lo com o seu próprio namorado, um amigo colorido lá do serviço. No dia em que José apanhou Josefina com o Miguel na cama livrou-se de três responsabilidades: mulher infiel, namorado clandestino e filha vampira. Um golpe de sorte, sem dúvida.

Inês era uma mocinha espampanante, plástica, toda ela aipode, toda ela aifaive, sem tempo para conversar, com pressa de chegar não se sabe bem onde e movida pela vaidade pequena de se ver bem vista. Mas não era rapariga para perder tempo em ilações sobre caixas e sei lá mais o quê. “É preciso guardar este trambolho quinze dias, né? A malta depois recebe uns cobres, né? Então passa p’ra cá isso rapidinho que ainda tenho que pôr umas cábulas no telemóvel pró exame de Sociologia, senão ainda não é este ano que termino a Faculdade.” E seguiu. Caixa no automóvel, banco de trás atulhado de sacos de zaras e mangos e sei lá mais quê, e a caixa. Sempre silenciosa, sempre pesada, sempre magnética.

Já à noite, em conversa com as amigas, referiu-se à caixa como um talismã oriental que lhe tinha comprado o Rodrigo – um super namorado, com um super carrão e uma super vida. A mentira até se percebe, não ficaria nada bem manter uma caixa com ela por 15 dias por uns trocos…

A conversa evoluiu da mentira pequena e inocente para todo um esquema em que Rodrigo foi obrigado a acompanhar como um cúmplice, toda uma história infindável cada vez mais rica em pormenores. A caixa comprada na Índia, um talismã benzido por um xamã qualquer, o valor exorbitante da caixa. E no final sempre exibida.

No dia de fechar o círculo a caixa foi devolvida com relutância – afinal, o talismã exercia sobre ela até uma boa vibração, e era chato aparecer sem a ajuda divina dentro do carro.

E a partir daqui o ciclo foi-se mantendo. De cada vez que trocava de tutor o sentimento de apego aumentava, fechando o circulo, apertando as vontades, aumentando a necessidade de ter a caixa, de odiar a caixa, de venerar a caixa.

E ainda assim a caixa manteve-se fechada, tal como o testamento assim o exigia. E quinzena a quinzena o chamamento inicial passou do quinto da herança cobiçada para algo novo e movediço.

Gertrudes necessitava da caixa, dominar os seus medos. José queria partir a caixa, libertar-se da raiva. Sérgio ambicionava o conteúdo, doce ou amargo, ilusório ou real, a guloseima ideal. Inês precisava da caixa, exibi-la, rechear o seu status com ela.

À quarta ronda juntaram-se os quatro por um acaso não ocasional. De um modo ou de outro acabou por se juntar a necessidade e o engenho e lá se reuniram com o procurador. Rápido se percebeu que estavam todos de acordo no desacordo, que é o que acontece quando se quer dividir em partes inteiras o que é uno.

“Meus senhores, o testamento é claro. Não podem abrir a caixa e não podem apartar-se ou apropriar-se dela, é sempre uma responsabilidade, nunca uma propriedade. Não há nada nas entrelinhas e ainda assim não sei se estão a cumprir o testamento, porque manifestamente vejo-vos aqui aos quatro!”

Como assim? A pergunta rachou o ar e instalou uma electricidade na sala. Após estes meses de rotações e de ambição, o que falhou? Alguma regra não enunciada? O que queria este palhaço moribundo dizer com isto?

Ao que parece uma das regras era que não podia haver reunião de herdeiros nomeados para discussão alguma relacionada com a caixa ou o seu eventual conteúdo.

Os ânimos alteraram-se. As vozes cresceram, treparam as paredes e fugiram com o som pelas arestas da sala, vincadas e inflexíveis. E no meio da troca de argumentos, a caixa chamou pelos seus tutores e estes jogaram-se a ela.

A alma da coisa passou de verbal a física. E no meio do contacto entre corpos a caixa caiu e quebrou os selos. A tampa separou-se e o interior da caixa expôs-se aos olhos alterados dos quatro animais que entre si trocavam empurrões e puxões.

A caixa estava vazia.

Ou pelo menos assim parecia. O procurador ajeitou os óculos, acertou o cabelo, compôs o fato.

“Eu sabia que era isto que ia acontecer, eu sabia! e o Samuel também, só que tinha a tola esperança que não… bom. Mas a caixa não está vazia. Gertrudes apanhe a tampa por favor…”

Gertrudes vergou-se e apanhou a tampa com alguma vergonha. Nas costas da tampa uma fotografia estava colada com fita adesiva. Uma fotografia velha e amarelada, cantos coçados e película estalada. Três crianças, mal vestidas, todas em escadinha junto a um cão quase do tamanho deles. Uma menina e dois meninos. Três sorrisos luminosos, tão luminosos que nem a idade da fotografia, a pobreza do suporte e os farrapos dos modelos conseguiam encobrir a luz deles. O cão rematava com um ar pacato, quase Velásqueziano, não fosse estar acordado.

As mãos nodosas, secas, muito nervosas viraram a foto… “ Eu e os meus irmãos muito felizes juntos” A letra infantil denunciava o escriba. Samuel sempre tinha tido uma letra muito pouco apresentável, mesmo depois de todos os estudos que fez. E denunciava um amor que a sua avareza sempre tinha escondido, porque havia algo no meio que sempre os dividira, até depois da morte. Mas a César o que é de César.

A fortuna foi então entregue, segundo cláusula testamental, a um indivíduo que geria uma empresa associada a uma organização não governamental de micro crédito especializado em empresas de cariz familiar e de apoio à família.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Eu daqui vejo tudo.

Eu daqui vejo tudo. Os que entram, os que saem, os que se esquecem do carrinho, os que têm que ir ao multibanco. Eu vejo as famílias, os solteiros, os separados - cada um com o seu cesto a comprar coisas repetidas. Vejo os putos que vão comprar cerveja, os ucras que vão comprar muita cerveja, as trintonas que vão comprar cremes e as quarentonas que vão comprar muitos cremes. Sou omnisciente. Sou omnipresente. Sou o fim de um processo que começa fora daqui, em casa, num anúncio, numa lista pendurada no frigorifico, num telefonema à ultima da hora ou num pensamento prolongado com o olhar fixo numa esquina da despensa.

Eu conheço quase tudo. O código do garrafão de 5 litros é diferente quando vem num pack, a fruta que tem que ser pesada, mangas, pêra abacate, pêra rocha, maçã starking, maçã raineta, maçã pink rose, pêro, uva globe, uva branca, uva cardinal, tremoço nacional, banana da madeira, banana que não vem da madeira, todo o tipo de citrinos, ananás e abacaxi, abacate, já disse manga? As promoções, os vales de desconto, os códigos errados, e claro, um ou outro produto que não tem código porque a malta do escritório não sei quê mas vai ficar amanhã.

Eu lembro-me de tudo. E é por isso que isto me custa tanto. E é por isso que não preciso de televisão. E é por isso que tenho que desabafar com alguém… porque se não o fizer não sei se alguma vez poderei ter o privilégio de esquecer. Eu lembro-me do preço do sabonete Vitalux há dois anos, 58 cêntimos. E os preservativos Qualitat estavam a 7,32 a caixa mas agora apesar de mais caros fazem uma promoção gira que oferece um colorido. Eu não precisava de decorar estas merdas… bastava passar o código e ouvir o bip. Mas a puta da curiosidade sempre me levou a melhor. Então eu decoro tudo… sou um preçário vivo. Mas ainda assim um preçário obsoleto e disfuncional, porque eu não posso introduzir um único preço! Tem que fazer bip. Bip. Bip. Mas se fosse só isto eu não me preocuparia. Afinal, mais preço menos preço, não seria uma fiada de números que me tirariam a tesão. Eu lembro-me dos que entraram, quando entraram, a cara que levavam, a roupa que carregavam, os que saiam, as compras que pagaram. E sei mais… sei pormenores da vida deles. Muitos pormenores.

A Srª Maria Dolores Graça Nascimento Pinto, faz compras sempre à sexta à noite. Compra sempre um avio que é obviamente semanal e leva uma eternidade a encontrar o cartão de débito. Leva sempre uma ou duas garrafas de vinho tinto, geralmente da promoção mais em conta, como a da semana passada, Mosteiro Velho, por 3,20 a garrafa. Nunca vi aquela mulher de calças. Ainda bem.

O Fernando taxista vem todos os dias pelo meio-dia comprar pão. Aquilo nem é pão, é um sucedâneo de pão. Ele sabe-o e até já o admitiu à minha frente. Tem sempre uma confusão imensa de coisas no bolso, incluindo pequenos pedaços de unha que saem junto com moedas, notas e cartões de prostitutas que ele ajuda na angariação. Desenganem-se se pensam que o pão é para ele. Já percebi que é para a mãe, houve um dia que ouvi a conversa no telemóvel. E lá está a cabra da curiosidade a registar tudo.

A Aida que mora no Bairro do Novo Baião não tem um padrão de compras. Nunca percebi ao certo, mas aposto que faz o resto das compras noutro sítio. O que sei é que foi casada, mas como já há um ano que não usa aliança… quem quiser que faça contas! Leva sempre aqueles iogurtes que fazem maravilhas a tudo: barriga, dentes, cabelo. Compra sempre daquelas marcas que são mais caras por motivo nenhum e sem razão aparente acabam por ter uma embalagem mais apelativa, como se subornassem as outras marcas para terem embalagens antiquadas. A rapariga vem sempre à pressa, esbaforida, sem vagar, tensa. Usa muita roupa vermelha, que lhe fica muito mal mas que insiste em mostrar as saliências e protuberâncias do seu corpo roliço e audaz. Nunca vi um par de tetas tão espetadas. Mas nem por isso elas se espantam com o meu olhar guloso, ainda nem bem tem o troco na mão já as mamas apontam para a porta de saída.

Não posso omitir a família do Zé Caixa. É uma comédia viva e por episódios. Primeiro vem a matriarca, muito pachorrenta, muito serena, muito feia, um buço de meter respeito ao mais digno chefe de família. Meia hora depois chega o senhor Caixa, sempre com o rego do cú a subir para fora das calças. Acho que faz parte do status de mecânico, é daquelas coisas, mecânico que é mecânico: calças cagadas e rego do cú a aparecer. Mas não compra nada, nem um palito. Vai só dar instruções à miss universo e regressa para o café, que também vejo daqui, e bebe mais um copo. Não interessa do quê, do que houver, beirão, amarguinha, cati çarque, ó homem ponha isso aí que eu só tenho 50 centimes. Depois, por último e triunfal chega a sogra do Zé. Ao que parece é a única com carta de condução, logo a única pessoa habilitada a levar a mercadoria a casa. Curiosamente, ou não, a única que veste roupa digna desse nome.

Estas pessoas são as estrelas principais. Os actores que entram em todos os episódios. Mas eu não esqueço os convidados especiais, os actores secundários, os figurantes, os duplos.

Um casal de hippies que em pleno Fevereiro apareceu a pedir à Susete do balcão de informações um guarda-sol, mas tinha que ser amarelo. Tinha que ser amarelo porque eles tinham mais ácido no sangue que uma bateria.

Um espanhol que queria pela graça e força de todos os santos populares pagar a conta em pesetas em pleno 2006.

As putas do Bar Cachalote que vêm à vez comprar uma dúzia de batons e três dúzias de preservativos. E um ou outro pacote de leite e muito esparguete, algum atum e sempre, mas sempre, água com gás… deve ser para o patrão.

O senhor agente Santiago que entrou duas vezes na tabacaria para comprar mortalhas de arroz e um isqueiro. Mas toda a gente sabe que ele não fuma, porque nem comprou tabaco. Ou se calhar fuma mas não fuma o que deveria fumar um agente da autoridade e até se calhar por isso é q só entrou duas vezes por lá.

Os casais de namorados, 14, 15, 16 anos a comprar preservativos, muito convictos do que são e do que querem, mas que nem por isso conseguem disfarçar o riso nervoso. Alguns foram pais este ano. Nunca fiar no látex ou na pressa.

E lembro-me da cara de todos os turistas incautos que pagaram o triplo por pilhas AAA do que pagariam na tabacaria, quando deveria ser ao contrário.

E não me esqueço dos episódios míticos, dignos de registo nos anais do retalho grossista e não só.

A vez que uma lata de tinta explodiu a meio do Verão. Foi de tal ordem que ainda existem luminárias com tinta verde manso referência C4003.

A vez que o nosso digno e douto gerente se peidou em quase estereofonia, que eu bem ouvi. Valeu-lhe ser nove e meia e o único cliente ser o Senhor Cabral que insiste em comprar peixe diariamente à mesma hora.

A vez que a casa de banho entupiu e havia não só o cheiro mas também um ribeiro de coisas que já foram nossas no átrio de entrada.
Mas isso seria mal menor.

Eu não esqueço os trocos que dei, eu não esqueço os talões de desconto que entreguei, eu não esqueço o valor de fecho desde 2004 e não esqueço o nome de uma única pessoa que me pague em cartão.

Não me consigo lembrar porque isto começou, nem quando me dei conta.

E sinto falta dos que não esqueço. Do António carpinteiro que morreu faz dois meses que comprava ginginha, do sô Castro, um viúvo subterrâneo que foi viver para o Algarve, da Antonieta que levou uma pazada de uma camião e agora nem tão cedo volta cá, que comprava sempre quilos de bolacha Maria. Curiosamente nunca mais houve bolo bolacha na cafetaria.

E sinto falta dos artigos que já não vendemos. Do lava-tudo com cheiro a maçã, que derramou na zona dos frescos e empestou as condutas do ar condicionado por meses, dos cotonetes bicudos que toda a gente reclamou, das vassouras tradicionais que não tinham código.

E sinto falta dos colegas. Do Chico que depois de ser pai dedicou-se a vender haxe, da Susana que casou com um militar e foi para o Porto, do Miguel que começou a beber para esquecer e esqueceu-se de parar.

Eu não consigo esquecer e tenho medo que venha a piorar. Tenho medo de me vir a lembrar do futuro. E aí eu vou saber que algo aqui dentro da caixa já não soma, nem divide, só multiplica.

Ser caixa ainda assim é uma profissão a ter em linha de conta. Ganho 480 euros por mês, um dia de folga por semana, dois uniformes e tenho um circo diário só para mim. Para quê televisão?